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AULA 3: O MOVIMENTO FENOMENOLÓGICO

Publicado em 17/01/2020

AULA 3: O MOVIMENTO FENOMENOLÓGICO

Muitas estudantes cometem equívocos ao considerar que um ou outro autor com algumas obras expressam o que vem a ser a fenomenologia. Acabam reduzindo erroneamente e compreendendo erradamente as principais ideias da fenomenologia. Herbert Spiegelberg¹  foi muito certeiro ao caracterizar a fenomenologia como “movimento”.

Edmund Husserl (1859-1938)

A fenomenologia teve início com Edmund Husserl, apesar de o termo já ser conhecido dos meios acadêmicos. O termo apareceu pela primeira vez no século XVIII com Christian Wolff que se referia a uma espécie de teoria da ilusão. Depois, Kant também utilizou desse termo indicando como disciplina propedêutica à metafísica. E em Hegel o termo aparece como título da sua maior obra – Fenomenologia do Espírito. Em algumas conferências de Franz Brentano também aparece na reflexão a respeito da metafísica. Mas Husserl não se vincula a nenhum conceito anterior para o uso do termo “fenomenologia”.

Husserl nasceu em 08 de abril de 1859 em Prossnitz (Morávia), de origem judaica, mas nunca seguiu a religião, tendo mais tarde se convertido ao luteranismo por ocasião de seu casamento com Malvina. Essa conversão ao luteranismo tem outro motivo mais profundo. Para ele o cristianismo tem um sentido de universalização, pois não se prende um determinado grupo étnico, racial ou cultural. Todos podem ser cristãos. Isso está de acordo com a filosofia, também saber universal que supera os limites. Cristianismo e filosofia se equivalem em termos de universalidade de atitudes.

Seus estudos superiores foram na direção da astronomia e matemática, inclusive seu doutoramento foi sobre o cálculo das variações em Karl Weierstrass. Teve a oportunidade de ouvir o filósofo Friedrich Paulsen sobre lições de ética e ficou muito impressionado. Da matemática aprendeu algo muito importante para a filosofia. Para ele, esse saber deveria buscar sempre a clareza e a evidência. Estudou com Karl Stumpf e sob sua orientação publicou a obra Sobre o conceito de número, que sofreu grande crítica do matemático G. Frege. A partir daí sua busca se direcionou para a escola de Franz Brentano. Foi ali que aconteceu uma guinada no pensamento de Husserl. Acrescentam-se ainda os estudos sobre o Conceito humano de mundo de Richard Avenarius e a Análise das sensações de Ernst Mach. Quando se lê as Investigações lógicas é possível encontrar aí o diálogo de Husserl com todos esses autores.

O próprio Husserl em suas conferências de Amsterdam em 1928 confessa que a sua fenomenologia pode ser compreendida como uma “certa radicalização de um método fenomenológico desenvolvido e praticado anteriormente por certos pesquisadores das ciências da natureza e certos psicólogos²” . Entre os cientistas da natureza estão Ernst Mach e Ewald Hering; e entre os psicólogos já é por demais conhecida a influência de Franz Brentano. Na obra: Os problemas fundamentais da fenomenologia Husserl indica que o primeiro germe da redução fenomenológica estaria em J. S. Mill. O que nos chama a atenção é que as críticas presentes em Prolegômenos à lógica pura são dirigidas a Mach e Mill. Mas, reconhece neles principalmente nas últimas obras a gênese de sua própria fenomenologia. Isso nos convoca a estudarmos diversos autores em outras áreas do conhecimento para entendermos a fenomenologia hussserliana.

A primeira experiência de Husserl como docente aconteceu na universidade de Halle (1887-1901), mas não como professor titular. A situação econômica da família nessa época não era das melhores. E aqui sua pedagogia filosófica tinha uma característica que ele mesmo confessa: “Busco conduzir, não instruir³” . Depois, foi ensinar na Universidade de Leipzig e Freiburg, formando grupos de estudos da fenomenologia que se reunia às sextas-feiras na própria casa. Foi a partir dessa experiência de grupos de pesquisa que surgiram inúmeros outros mundo a fora. 

Os círculos fenomenológicos e sucessores na fenomenologia

Os círculos fenomenológicos ampliaram e desenvolveram os horizontes da fenomenologia. Assim foram aparecendo expoentes fundamentais em diversas áreas da filosofia e ciências humanas: Alexander Pfander (Psicologia), Adolf Reinach (Ontologia), Moritz Geiger (Estética), Hedwig Conrad-Martius (Realidade), Roman Ingardem (ontologia), Edith Stein (Fenomenologia e mística), Alexandre Koyré (Ciência), Ludwig Landgrebe (Filosofia), EugenFink (Filosofia), Alfred Schutz (Sociologia), Max Scheler (Filosofia), Nicolai Hartmann (Filosofia), Martin Heidegger (Fenomenologia hermenêutica). 

Na França outro grupo de pensadores deu à fenomenologia novos contornos: Gabriel Marcel (Filosofia), Jean-Paul Sartre (Filosofia), Maurice Merleau-Ponty (Filosofia), Paul Ricoeur (Filosofia Hermenêutica), Emmanuel Levinas (Filosofia ética).

Em decorrência das perseguições nazistas, outro grupo migrou para os Estados Unidos: DorionCarins, MarwinFarber, Aron Gurwitsch, Felix Kaufmann, Fritz Kaufmann e Fritz Kaufmann, Arnold Metzger e Alfred Schutz.

O esforço filosófico de Husserl e seus sucessores se direcionou e se direciona ainda hoje a resolver de maneira simultânea uma crise das ciências do homem e uma crise das ciências em geral. Ainda não escapamos desse desafio. O curso objeto desse escrito incluiu uma conferência de Husserl que fora discutida sob a forma de seminário: A crise da humanidade europeia e a filosofia4 .

A fenomenologia pode ser definida como um diálogo e uma meditação infinita e não nos cabe prever onde vai dar. Ela se caracteriza pelo inacabamento. Ao contrário dos sistemas filosóficos. E esse inacabamento não se refere a uma fraqueza, mas ao desafio que a sustenta – “revelar o mistério do mundo e o mistério da razão”, como nos diz Merleau-Ponty5 .

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¹ SPIEGELBERT, Herbert. The phenomenologicalmovement. Dordrecht/Boston/London: KluverAcademicPubliscers, 1994. 768p.
² HUSSERL, Edmund. PhänomenologischePsychologie. VorlesungenSommersemester 1925. Haag: M. Nijhoff, 1962. (HUSSERLIANA IX).
³ HUSSERLIANA, Vol. 5, 1954, p. 17.
HUSSERL, Edmund. A crise da humanidade europeia e a filosofia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.

5 MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994. P. 20.


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