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AULA 6: A FENOMENOLOGIA E SEU ENSINO

Publicado em 17/01/2020

AULA 6: A FENOMENOLOGIA E SEU ENSINO

Nesse ponto, muitos alunos iniciam os estudos de fenomenologia e aqui também abandonam. Conforme testemunha Martin Heidegger¹ , o ensino de Husserl era um exercício progressivo, bem como aprendizagem do “ver fenomenológico”. Em primeiro lugar, o mestre exigia a renúncia de qualquer uso não crítico de conhecimentos filosóficos, bem como a não trazer para o diálogo a autoridade dos grandes pensadores. Trata-se de não partir de pré-juízos, teorias já consolidadas. Era necessário estabelecer uma epoché (suspensão de juízos), como falaremos mais adiante. Heidegger confessa que não conseguia se afastar de Aristóteles e que o “ver fenomenológico” fecundava a interpretação dos textos desse pensador.

O passo decisivo é caracterizar o que vem a ser esse “ver”. Como não se trata de uma corrente filosófica ou um sistema, caberá apenas ver a possibilidade do pensamento de corresponder ao apelo do que é pensado. Trata-se de verificar e compreender a fenomenologia como possibilidade.

A fenomenologia se apresenta então como uma descrição do fenômeno produzida pela consciência intencional. Trata-se de atentar para o fluxo imanente das vivências que constitui a consciência. Aqui reside a condição a priori de possibilidade do conhecimento. Nota-se que não estamos no mesmo modo de tratar o entendimento a partir das formas a priori de espaço e tempo. O ver fenomenológico implicar em abrir os olhos para isso que estou vendo, para que a coisa percebida apareça no horizonte em que se mostra e nos limites em que se mostra. Não estamos falando de uma realidade objetiva ou subjetiva, pois a percepção não é uma faculdade que se encontra na interioridade. A percepção é puramente ato de perceber que ocorre no interior das relações intencionais. O ato de ver é um acontecimento do fenômeno.

Merleau-Ponty seguindo as trilhas do ver fenomenológico vai tratar da percepção reduzindo inicialmente todas as teorias idealistas da percepção e da consciência, buscando os vetores internos ao fenômeno, que possibilitam ver o fenômeno em outras perspectivas, em outros perfis. E, sustenta que “é por meu corpo que compreendo o outro, assim como é por meu corpo que percebo as coisas” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 25). O sentido de um gesto não se esconde no interior da consciência, mas se confunde com a estrutura do mundo que o gesto desenha.

O mundo não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo. E, por isso ele é um fenômeno inesgotável. Não há uma verdade interior a ser perscrutada, pois nem homem interior existe. O homem está no mundo e nele se conhece. É no mundo que se dá o “ver fenomenológico”.

Então, a dificuldade para se conhecer a fenomenologia não está na ordem do entendimento. Enquanto a pessoa não conseguir ver fenomenologicamente as coisas irá ter dificuldades cada vez maiores nos estudos de fenomenologia. A primeira orientação que dou aos alunos para entender o pensamento fenomenológico está aqui – “vocês devem se esforçar para ver fenomenologicamente as coisas, os fenômenos”. Permanecer na atitude natural ou cientificista a pessoa cairá na impossibilidade absoluta de conhecer o pensamento fenomenológico.


¹ HEIDEGGER, Martin. Meu caminho para a fenomenologia. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 299.


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