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AULA 7: PONTO DE PARTIDA DA FENOMENOLOGIA

Publicado em 29/01/2020


AULA 7: PONTO DE PARTIDA DA FENOMENOLOGIA

As Investigações Lógicas, escritas entre 1900 e 1901, são consideradas a obra inicial e fundamental como ponto de partida da fenomenologia. São três volumes que perfazem umas 900 páginas de texto denso e profundo. Os grandes estudiosos do pensamento husserliano tomaram esse texto como inicial e primordial para se conhecer a fenomenologia. Edith Stein testemunha que seu ingresso na fenomenologia se deu com a leitura dessa obra, determinando sua ida à cidade de Gottingen para estudar com o próprio Husserl. E é ali nessa obra que o mestre apresenta o ponto de partida comumente dito de maneira sintética como “voltas às coisas mesmas”. Na parte que trata das investigações para a fenomenologia e teoria do conhecimento que se propõe a esclarecer os fins a que tendem essas investigações, ele assim declara ao modo de uma convocação: 

                         Não queremos dar-nos por satisfeitos com meras palavras, isto é, com uma compreensão verbal meramente simbólica, como a que temos em nossas reflexões sobre o sentido das leis                                          estabelecidas na lógica pura sobre conceitos, juízos, verdades, etc., com suas múltiplas particularidades. Não nos satisfazem significações que ganham vida – quando ganham – de intuições                                remotas, confusas,  impróprias. Queremos retornar às coisas mesmas [grifo nosso]. Na língua alemã, esta frase grifada está assim escrita: Wirwollenauf die “Sachenselbst” zurückgehen!                                         (HUSSERL,2001, p. 218) .

Cena semelhante podemos encontrar na trajetória de René Descartes quando diz que se encontrava perdido entre dúvidas e erros, e que não conseguia encontrar coisa alguma para discutir que não fosse duvidosa. Até mesmo os saberes da matemática se apresentam de maneira confusa e obscura. Nesse sentido é extremamente significativo que Husserl no final da carreira escreve “Meditações cartesianas”, dando a entender que o caminho iniciado por Descartes com a descoberta da transcendentalidade deveria ser continuado, pois Descartes fora seduzido pelas ciências empíricas abandonando o projeto transcendental que mais a frente discutiremos.

Em que consiste voltar às coisas mesmas? Não poderia significar um retorno às essências ao modo do que os escolásticos fizeram. Em Husserl, o retorno às coisas significa um ver face a face aos objetos do mundo, uma face a face do fenômeno. Deixar de lado, ou fazer uma epochéou na língua matemática que ele tanto conhecia um colocar entre parênteses sob a forma de suspensão do juízo. Trata-se de retornar às intuições mais originárias de onde emerge o conhecimento, um retorno àquilo que nos aparece como algo experimentado, vivido, conhecido, fantasiado, imaginado, pela consciência transcendental. É necessário “dar um tempo” aos pré-conceitos de toda ordem colocando-os em suspensão. 

Por exemplo: no campo da religião voltar às coisas mesmas significa experimentar o mundo sagrado antes dos ditos dos textos sagrados. Estes se referem a uma experiência vivida. O mesmo direito temos hoje de fazer antes essa experiência e depois nos confrontar com os textos sagrados. Vivemos num fundamentalismo radical que desconsidera qualquer possibilidade de nossa própria vivência. O que determina é a norma. Então, os olhares dos religiosos na atualidade sofrem da necessidade de uma redução, de uma suspensão. As pessoas hoje se guiam puramente pelos pré-conceitos abdicam da riqueza do caminho de voltar às coisas mesmas.

Nas aulas do curso citei como exemplo o momento da chegada dos portugueses no Brasil em 1500. A primeira preocupação deles foi até motivo de envio de cartas a Portugal solicitando vestimentas, era o fato de os indígenas andarem nus. Para os portugueses, carregados de preconceitos morais já consolidados, andar nu era uma indecência, uma imoralidade. Por isso, era preciso cobrir as vergonhas dos indígenas. Nesse caso, voltar às coisas mesmas significa retornar à vivência estabelecida no andar nu dos indígenas. Até onde nos é permitido caracterizar o andar nu como imoral? Ou a imoralidade não estaria nos olhares preconceituosos do homem branco?

[1] HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Vol. 1. Madrid: Alianza Editorial, 2001.



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