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AULA 8: A DESCOBERTA DA TRANSCENDENTALIDADE

Publicado em 29/01/2020


AULA 8: A DESCOBERTA DA TRANSCENDENTALIDADE

No segundo parágrafo de Meditações cartesianas quando aborda a necessidade de um recomeço radical em filosofia que o caminho do filosofar exige prudência crítica e postura de se estar sempre pronto a transformar o antigo cartesianismo toda vez que for necessário, e, sobretudo, “evitar certos erros sedutores dos quais nem Descartes nem seus sucessores souberam evitar a armadilha” . Para Husserl, Descartes inaugura um “novo tipo de filosofia”, passando do objetivismo ingênuo da metafísica para um “subjetivismo transcendental”. Reconhece que desde o século XVIII a filosofia encontra-se num estado de decadência em relação a épocas anteriores. 

O que aconteceu? O mundo moderno presenciou a fé religiosa transformando-se em convenção externa e uma nova fé tratou de captar e pôr em destaque a humanidade intelectual. Trata-se da fé numa filosofia e numa ciência autônomas e assim, toda a cultura humana deveria ser guiada e esclarecida por visões científicas. Mas, essa nova fé empobreceu, deixando de ser uma fé verdadeira. A filosofia cresceu muito, mas não se encontra nela qualquer ligação interna. O que se tem são pseudo-exposições, pseudo-críticas. E, conclui o quadro real da situação: “Esforços recíprocos, consciência das responsabilidades, espírito de colaboração séria visando a resultados objetivamente válidos, ou seja, purificação pela crítica mútua e capazes de resistir a qualquer crítica posterior, nada disso existe” (HUSSERL, 2001, p. 23).

A situação em que se vive nos tempos atuais é de penúria ainda maior no domínio do pensamento. O quadro da humanidade atual ficou ainda mais confuso e complexo. Do objetivismo cientificista ingressamos num caminho de notícias falsas, discursos falsos, decisões tomadas a partir de premissas nulas, que nem mesmo o campo do Direito ficou ileso. O que está determinando a capacidade de se sustentar é à força da argumentação que se ergue a partir da crença. Crer passou a substituir o compreender e o entender. As novas tecnologias de informação acabaram gestando uma sociedade apressada, que não suporta gastar muito tempo para pensar, ler ou escrever. Tudo deve ser desenvolvido em posts. Algumas figuras acabaram ganhando força nessa penúria intelectual e nem mais cuidado com as palavras ou com o pensamento racional organizado e sistematizado se preserva. São tempos de frases curtas, pensamentos curtos ou nenhum, decisões rápidas e impensadas.

Então, é no quadro da crise do pensamento que nasceu a filosofia transcendental em Descartes e nesse mesmo quadro Husserl propõe um novo rumo, mas continuando o caminho aberto por Descartes, evitando contudo perder-se ou ser seduzido por alguma outra proposta. E onde se situa o momento tão elogiado por Husserl na filosofia cartesiana denominado de caminho transcendental? A fenomenologia é uma filosofia transcendental, mas diferente da filosofia kantiana.
Em Descartes foi a descoberta do Ego cogito que caracterizou a inauguração moderna mais importante na filosofia. Ali está a transcendentalidade. Mas conforme Husserl, Descartes não explorou as possibilidades que essa dimensão daria para o pensamento. E seduzido pelas ciências, enveredou nos caminhos metodológicos. A fenomenologia também se inicia pelo Ego cogito, mas em razão da intencionalidade da consciência, teremos um Ego cogito cogitatum. Tem então um objeto intencionado que Husserl denomina de “guia transcendental”. Ora, conforme ele mesmo nos informa no parágrafo 21 de Meditações cartesianas o ponto de partida não estaria no ego cogito, mas o objeto simplesmente dado. Depois é que a consciência remonta ao modo de consciência correspondente e aos horizontes ali implicados. Assim como um objeto pode ser pensado, também pode ser fantasiado, imaginado, desejado, mantido na memória, enfim, na transcendentalidade encontra um horizonte infinito de dimensões que transformam e enriquecem. Nascem daí as diversas teorias: da percepção, da intuição, da significação, do julgamento, da vontade. Husserl lamenta como faltou a Descartes a orientação transcendental.

Nas lavras de Husserl: Descartes “fez do ego cogito um axioma, uma substância cogitans separada, um mens sive animus humano, ponto de partida de raciocínios de causalidade. É essa confusão que fez de Descartes o pai do contrassenso filosófico, que é o realismo transcendental”. Afirma Husserl (2001, p. 98) que “Descartes não escapou por ter se enganado a respeito do sentido verdadeiro de sua epoché transcendental e da redução ao ego puro. Mas, a atitude habitual do pensamento pós-cartesiano é bem mais grosseira, precisamente por ter ignorado completamente a epoché cartesiana”.

Ele tem o mérito de ter feito a maior das descobertas, porém não captou o sentido correto dessa descoberta, o sentido da subjetividade transcendental verdadeira. A fenomenologia é um caminho para a exploração do “campo infinito da experiência transcendental”. Todo cogito carrega consigo seu cogitatum. É por esse motivo que a consciência tem de ser uma consciência intencional, isto é, carregar sempre seu cogitatum. É o que veremos na aula a seguir.


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